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Meire Cavalcante, Opinião

Um desafio aos surdos

Por Meire Cavalcante

Ultimamente, tenho lido e visto coisas que, para mim, são, no mínimo, surreais. Está havendo uma inversão perversa de valores. Sinceramente, já estou até duvidando do que é “ensino de qualidade”. Explico.

Desde que se implantou essa guerra despropositada entre escola especial x inclusão, uma onda de ataques covardes e sem fundamento instalou-se por meios digitais (textos e vídeos) contra a professora Maria Teresa Eglér Mantoan. Especificamente na comunidade surda. E o discurso beira a baixeza, a falta de educação e o destempero.

Para quem não sabe, a professora Maria Teresa atua como docente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e dedicou toda a sua vida à questão da diferença e da inclusão. Nem sempre foi assim, na verdade. Ela começou a carreira como professora de escola especial e sequer acreditava na inclusão. Mas mudou de ideia em uma viagem que fez a Portugal. Desde então, passou a estudar o assunto. E, quando ela estava afundada em livros e em pesquisas para compreender o tema e, mais tarde, ajudar a modificar a história da educação especial no país, a maioria dos papagaios de plantão (que agora a difamam) sequer havia nascido. Sim, papagaios, pois repetem sem pensar ou, pior, sem se informar.

Pois bem. Virou modinha, entre os surdos e seus líderes, fazer vídeos em LIBRAS para difamar a professora na internet. Acho importante, só para deixar registrado, que a professora Mantoan (a quem muitos surdos atribuem sinais e adjetivos pejorativos) tem uma vida acadêmica impecável, apresenta conduta pública irretocável e coleciona uma série de trabalhos, publicações e honrarias, sendo a última delas a Ordem Nacional do Mérito. Esta, inclusive, lhe foi entregue pelas mãos da presidenta Dilma Rousseff em março deste ano. É um dos mais importantes títulos honoríficos do país. Qualquer um chega lá? NÃO. Portanto, mais respeito.

O curioso é que, mesmo sem saber do que estão falando, os surdos que a difamam fazem pipocar pela rede mundial vídeos em LIBRAS sem legendas. Isso mesmo! Sem legendas. Cadê a acessibilidade, hein? Assisti a um vídeo em que a professora Mantoan dava uma entrevista. Em um dos comentários, o internauta dizia: “Cadê a legenda? Acorda, Mantoan, você está desrespeitando a lei de acessibilidade”.

E o que fazem os surdos que postam vídeos em LIBRAS sem legendas? Que inversão é essa? Enquanto a professora Mantoan e milhares de outras pessoas pelo país lutam por acessibilidade física, pedagógica e comunicativa nas escolas e na sociedade, os surdos caminham ao contrário. Querem escola só pra eles. Gravam vídeos que desrespeitam o que eles pleiteiam para si. E, pior, dizem que preferem a escola especial, só de surdos, porque ela “é melhor”, “tem qualidade”.

QUE QUALIDADE?

Muitas vezes, lendo as mensagens na internet, encontro surdos que mal conseguem se expressar de forma coerente por escrito! É lastimável. E a maioria luta por essa escola, que aparta do convívio, que não colabora para tornar as outras escolas inclusivas e, pior, que ensina um péssimo português. Isso precisa ser dito! Como vão poder avançar academicamente se a produção escrita é parte fundamental para o aprendizado? Como vão poder ler e assinar um contrato sem precisar de um tutor para ler por eles e dizer se podem ou não assiná-lo? Como vão se sair no mercado de trabalho desse jeito? Que escola “boa” é essa?

Desculpem-me os surdos e suas causas, mas não vejo o menor sentido nessa briga. E não consigo, por mais que me esforce, entender que vantagem existe em viver numa escola separada que ensina um português precário. É inegável que a escola especial de surdos domina como nenhuma outra o ensino de LIBRAS. Então, por que não tirar esse conhecimento de dentro desse feudo e democratizá-lo? Eu quero ter direito a aprender LIBRAS, a conviver com surdos, a trabalhar com surdos, a não me sentir excluída quando vejo um vídeo porque não sei a primeira língua dos surdos. Não é isso o que os surdos querem? Também quero! E como vamos tornar isso possível para as próximas gerações?

Só há um caminho viável: a inclusão escolar.  Enquanto não houver convivência, nada anda, nada muda, nada melhora. Isso é básico, é simples e fácil de entender. Haverá dificuldades? Haverá desafios? Claro! Não se constrói escola de qualidade da noite para o dia, muito menos inclusiva (pois isso mexe nos preconceitos das pessoas). Mas temos que começar. Temos que dar o primeiro passo, oras.

Esse blá, blá, blá de preparar a escola e formar os professores para a inclusão é velho. Tem, pelo menos, 23 anos (já que nossa Constituição é de 1988). Ninguém vai se mexer no poder público e nas escolas para receber alguém que não vai chegar. Ninguém vai aprender LIBRAS para ensinar surdos que não estão lá! E os surdos, o que vão fazer? Deixar para lá? Dizer que a escola comum não é boa para eles e fazer perpetuar esse quadro de exclusão? Cadê a juventude surda, que deveria ver a obviedade da inclusão escolar e lutar para mudar esse quadro que está aí há décadas instalado? Geralmente, os jovens são o motor das grandes mudanças.

E como falar de inclusão social sem falar da educacional. Isso é até engraçado. Porque o patrão que contrata um surdo não vai se esforçar nem um pouco para se comunicar com ele, a não ser que o surdo se esforce muito para se fazer entendido e permanecer no emprego. Não é mais lógico ter um plano para este país para que ele se torne bilíngue? E para que, com isso, o surdo seja também o patrão e passe a contratar ouvintes? Para que este país dê oportunidades a todos. Para que as pessoas com deficiência não fiquem eternamente pedindo um lugarzinho ao sol, como se fosse favor fazer parte da sociedade ou do mercado de trabalho?

Pois essa é a proposta do MEC. E o mais absurdo é ver propagada a mentira, que faz muita gente acreditar que Mantoan e o MEC são contrários ao bilinguismo. Que triste!

Diante disso, sou eu que digo: “Acordem”. E antes de saírem gravando vídeos e escrevendo atrocidades, estudem, leiam, informem-se. Vamos construir uma escola comum boa para todos! Jovens surdos, convido vocês a fazerem essa transformação. Vamos tornar o país bilíngue por meio das escolas comuns! Esse é o plano.

Recentemente, coloquei no ar um vídeo em que um surdo, chamado Hans, explica, em Libras, o que é inclusão e fala um pouco da história da professora Mantoan. Ah, eu legendei tudo, para ficar acessível para os ouvintes, ok?

Termino este texto com um desafio aos surdos: porque vocês não fazem circular esse vídeo do Hans com a mesma velocidade que fazem circular os vídeos difamatórios contra a professora?

E, especificamente para aqueles que gravaram vídeos contrários a ela e à inclusão, seria interessante ver se vocês vão se aprofundar na questão e formar opinião própria, em vez de repetir o que lideranças baixas (e estas, sim, desesperadas) propagam por aí sem o menor pudor.

Por fim, pra quem acha que o MEC é contra o ensino bilíngue, fica aqui também a nota técnica emitida no dia 19 de maio, mesmo dia em que houve uma passeata em Brasília no mínimo vergonhosa. Sim, vergonhosa. Porque ali não estavam apenas os surdos em defesa de uma educação própria devido à sua característica linguística, mas também várias entidades que defendem a escola especial e que, assim, continuam colaborando para o atraso do processo de desenvolvimento da educação inclusiva nos país e, desta forma, contribuem para a permanência do estado de negação de direitos constitucionais.

Vídeo do Hans:

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Discussão

6 comentários sobre “Um desafio aos surdos

  1. Não acho que seu texto seja pacificador. Você diz que a convivencia é o ideal, que essa birga não tem sentido, mas alimenta a divisão quando chama quem diverge do seu valor de papagaio.
    Temos que colocar um basta na bravata, de ambos os lados!
    Vejo o movimento dos altistas de Fortaleza exigindo inclusão, ontem em Curitiba um movimento de altistas tentando convencer deputados na A.L. que inclusão não é para altistas. Quais das duas correntes estão com a razão??????
    O que temos são valores, um lado acha que o seu “valor” é o correto, o outro também, se degladeiam e um não consegue convencer o outro.
    Só que a inclusão vem acontecendo! O Mec mesmo mostra numeros que provam seu avanço, algumas Apaes importantes (São Paulo e Salvador, etc) já estão se tornando centro de atendimento complementar para dar suporte quanto às terapias de manutenção tão importantes para a maioria das crianças com deficiencia, fechando suas escolas especiais. O resultado de tudo isso, implantado sim, por Dra. Mantoan, Dra. Eugenia, Lourdes Canzian, e outros tantos que iniciaram esse movimento, será o que mais testemunhará sua eficiencia.
    Não se convence através da negação do valor do outro, (lembram-se do pastor chutando a imagem da santa?) da negação da história da educação especial, talvez não tivessemos falando de inclusão se há 50 anos atrás não tivesse acontecido o movimento das escolas especiais quando crianças que apresentavam deficiencia, ficavam em casa (ai sim segregadas) e as que não “aparentavam, mas eram” iam para a escola e recebiam o titulo de “burro”, porque não aprendiam.
    A Inclusão é uma realidade que não pode ser negada mais, tampouco revertida, há sim de ser conquistada!
    Existe muito a ser feito, derrubada de resistencias, formação de escolas totalmente inclusivas, garantia do trabalho inclusivo, fazer nossos governantes pensarem de forma inclusiva, rever situações, fazer o finaciamento vir de outras fontes que não seja só Mec e Secretarias de Educação. Temos muito por “lutar”, não podemos perder tempo “brigando”.

    Publicado por José Alcides | 10/06/2011, 6:04
    • Obrigada por escrever, José Alcides. Meu texto não teve a pretensão, desta vez, de ser pacificador. Foi um texto esclarecedor, na verdade. Porque é preciso divulgar as informações de forma correta. É o que procuro fazer. Em relação ao seu argumento de que eu alimento a divisão quando chamo de papagaio quem diverge de mim, isso não procede. Acho que você não entendeu o que escrevi. Chamei de papagaio (e reafirmo aqui minhas palavras) as pessoas que estão caluniando a professora Maria Teresa Mantoan por meio de vídeos e textos na internet. Muitos são jovens, que repetem sem pensar e sem se informar, aquilo que leram ou viram a respeito. E isso é muito sério.

      Em meu texto, não nego o valor de ninguém. Só contesto que uma causa não pode usar o nome de quem quer que seja como bode expiatório para ser defendida. E é isso o que está acontecendo.

      Em relação à inclusão educacional, não vejo a possibilidade de tratá-la por negociata, disputa ou lobby. Não há outra forma de defender a inclusão se não por meio da nossa constituição, queriam ou não os movimentos X, Y, Z. Essa é minha posição. E, para defendê-la, não busquei difamar e atacar ninguém. Quem tem uma causa que a defenda de forma digna. Por isso, este texto.

      Publicado por Inclusão Já! | 12/06/2011, 19:50
  2. Parabéns Meire Cavalcante! Só não concordo com duas coisas: que a língua de sinais é a primeira língua dos surdos. Isso não é verdade, pois há muitos outros surdos, como eu, cuja língua materna é o português. Outra coisa é que a legenda do vídeo do Hans não serve apenas para ouvintes, servem também para surdos oralizados cuja primeira língua é o português. Beijos!!

    Publicado por anahigm75 | 10/06/2011, 16:27
    • Obrigada por escrever, Anahi. Sim, você tem toda razão. Agradeço muito o esclarecimento. Vou me lembrar disso sempre. A sua contribuição me faz ter, a cada dia que passa, mais certeza de que temos que ter cuidado com movimentos barulhentos. Porque eles acabam alardeando (pela imprensa, inclusive) que falam em nome de todas as pessoas com a mesma deficiência. E isso não é verdade.

      Publicado por Inclusão Já! | 12/06/2011, 19:53
  3. Meire, a parte que tu falaste dos deputados é muito importante. Infelizmente, quando eles defendem o movimento contra inclusão, a maioria nem entende o que defendem, apenas querem garantir o apoio político de instituições. Quem dera que ao menos estivessem inteirados de verdade.
    aff.
    []s
    Claudio

    Publicado por Claudio | 20/11/2011, 13:49
  4. Meire, muito bom esse texto. O vídeo do Hans é um ponto de muita reflexão, no entanto, ele não é totalmente acessível, afinal, como o vídeo não é narrado pessoas com deficiência visual não têm acesso ao manifesto.
    Beijos
    Ari Vieira

    Publicado por Ari Vieira | 15/01/2012, 12:30

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