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Meire Cavalcante, Opinião

Plano Nacional de Educação: inclusão escolar ameaçada

 

Por Meire Cavalcante

No dia 05 de dezembro, segunda-feira, foi apresentado o texto do novo Plano Nacional de Educação, documento que norteará as ações do país na área da educação pelos próximo dez anos. A Campanha Nacional pelo Direito à Educação divulgou, nesse mesmo dia, uma breve análise sobre o texto preliminar (proposto pelo Deputado Angelo Vanhoni, depois de consideradas as quase 3 mil emendas apresentadas ao texto original). Dentre os pontos destacados no texto da Campanha estão a incorporação do Custo Aluno Qualidade (CAQi), o reforço do controle social, a falta de determinação das responsabilidades federativas, os problemas de concepção em algumas metas e a crítica a apenas 8% do Produto Interno Bruto destinado à área da educação. Vale a leitura do artigo, pois todas as discussões que envolvem o PNE são fundamentais e cabe à sociedade acompanhar, manifestar-se e fiscalizar.

O Inclusão Já!, aqui, destaca especificamente a proposta de redação da Meta 4 do PNE, que trata da educação de pessoas público-alvo da Educação Especial. Lembramos que o texto original do PNE, tal qual apresentado pelo Ministério da Educação, foi fruto de deliberações de centenas de delegados na Conferência Nacional de Educação. Mas isso, ao que parece, pouco importou ao relator Angelo Vanhoni. A avalanche de quase 300 emendas à Meta 4 e as suas estratégias, muitas delas retrógradas e baseadas na segregação de seres humanos, surtiu efeito sobre o deputado.

Temos, hoje, uma Meta 4 que simplesmente legitima, agora de forma bastante clara e sem margem a dupla interpretação, a exclusão dessa população do sistema comum de ensino. Se o texto apresentado pelo deputado fosse aprovado e se tornasse lei, o PNE tiraria o Brasil da vanguarda da educação inclusiva e passaria uma rasteira na nossa Constituição Federal. Voltaríamos, com isso, ao modelo assistencialista da escola especial, ao modelo que permite que “um ser superior, especializado” determine se uma criança ou um jovem é suficientemente cidadão  (ou não) para estar numa escola comum.

Numa manobra ardilosa, o texto proposto tenta fazer uso do texto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDBEN), deturpando o seu sentido, tentando perpetuar um modelo falido de escola especial, que se alinha mais a depósito de pessoas do que escola.

Veja o texto inicial proposto para a Meta 4 (fruto da CONAE, e baseado na Constituição Federal e Na Convenção sobre os direitos das Pessoas com Deficiência, Art. 24):

Meta 4: Universalizar, para a população de 4 a 17 anos, o atendimento escolar aos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação na rede regular de ensino.

Agora, leia o texto apresentado no substitutivo do Deputado Angelo Vanhoni:

Meta 4: Universalizar, para a população de quatro a dezessete anos, o atendimento escolar aos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, preferencialmente, na rede regular de ensino, garantindo o atendimento educacional especializado em classes, escolas ou serviços especializados, públicos ou comunitários, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível sua integração nas classes comuns.

O trecho “sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível sua integração nas classes comuns” é uma afronta a todos os cidadãos deste país. Em primeiro lugar porque coloca nas mãos de alguém o direito à educação (direito este, aliás, inalienável), pois a redação dá a “especialistas” o poder de enclausurar pessoas em escolas especiais. E quando aceitamos que se condicionem direitos humanos, a arbitrariedade impera.

Em segundo lugar, o texto da LDBEN que “inspira” o texto proposto por Vanhoni não diz, em momento algum, que é a inclusão do ALUNO na escola comum que deve ser relativizada, mas sim a oferta do ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO na escola comum que é preferencial. Como o texto da LDBEN foi redigido para causar dúvidas, ele sempre foi entendido como uma possibilidade legal para excluir. Mas não é, pois nenhuma lei pode ferir a Constituição Federal.

Por fim, o texto traz do mundo dos zumbis a palavra “integração”. Já passamos disso há anos!

Esta é mais uma tentativa de frearmos, por meio de textos legais intencionalmente mal redigidos, o processo de ampliação da educação inclusiva. Dez anos (tempo de vigência do PNE) seriam suficientes para implantarmos um sistema de ensino inclusivo, como determina o Artigo 24 da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que tem valor de Constituição Federal. Mas, a exemplo do absurdo cometido com a publicação do recente Decreto 7.611/11 (leia mais aqui), o PNE também é alvo de lobistas que se beneficiam da exclusão de seres humanos. A sociedade civil não aceitará esse retrocesso e essa afronta à CF/88, pois uma lei do porte do Plano Nacional de Educação só pode, minimamente, ser publicada dentro dos princípios constitucionais deste país. A nossa lei maior está acima dos achismos e dos interesses pessoais ou de entidades.

Estão sendo feitas, agora, diversas reuniões para que se apresentem emendas ao substitutivo. Eis o caminho. Como bem colocou o texto da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, a Meta 4 é um dos pontos que precisam de revisão imediata. O mesmo deve ser feito, como explicado pela procuradora da república Eugênia Gonzaga, com o Decreto 7.611/11. Ambos não podem permanecer em desacordo com os preceitos constitucionais. Continuamos em campanha pelo direito inalienável de todos e todas à educação, sem restrições, sem segregação, sem justificativas pobres e indignas para que pessoas sejam institucionalizadas e excluídas da escola e da sociedade.

Para assinar o manifesto online em defesa da inclusão, clique aqui.

Para ler o texto substitutivo do Plano Nacional de Educação, proposto pelo Deputado Vanhoni, clique aqui. O relator faz considerações sobre todas as emendas e apresenta o substitutivo da página 229 em diante.

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Discussão

10 comentários sobre “Plano Nacional de Educação: inclusão escolar ameaçada

  1. Se houve quase 300 emendas à meta 4 é porque ela não foi tão democrática assim. A Conferência Nacional de Educação sequer respeitou o direito das pessoas surdas e/ou com deficiência falarem por elas mesmas, condição sine qua non de exercício democrático, preconizado pela Convenção Internacional das Pessoas com Deficiência.

    Publicado por Alex Oliveira | 08/12/2011, 16:30
    • Olá, Alex, obrigada por escrever ao Inclusão Já! Isso que você afirma não é verdade. A Conae foi um exemplo de processo democrático e a Meta 4 se baseia na CF/88, como já diz o texto. Se alguma causa não passou na Conae é porque não foi aprovada pela maioria. E isso precisa ser respeitado. É um absurdo o país ter investido dinheiro para promover a Conae e, agora, deputados e lobistas jogarem 2 anos de deliberações no lixo, junto com a CF/88, achando que isso vai passar batido. Não vai. Por fim, recomendo a leitura das quase 300 emendas apresentadas à Meta 4 e estratégias. Nem todas são absurdas, registre-se. Mas a maioria é de arrepiar os cabelos! Está tudo no documento linkado acima (com mais de 200 páginas). A existência dessas emendas que tentam impor atrocidades é justamente a reação de quem foi voto vencido e quer a segregação. Um abraço!

      Publicado por Inclusão Já! | 08/12/2011, 19:23
  2. Acompanho o seu blog e também quero uma educação de qualidade para a pessoa cm deficiência. Só não concordo como vc se refere às escolas especiais. Eu não conheço todas, mas posso falar pela minha, a Escola Municipal de Surdos de Angra dos Reis, onde sou professora de português há 5 anos. Lá, nos pautamos por uma educação bilíngue, temos a preocupação de oferecer um ensono de qualidade, promovendo estudos constantes sobre a prática educacional para o Surdo. Sinto-me ofendida quando vc fala de uma forma tão maniqueísta sobre as escolas especias. Eu acredito que a nossa escola é VERDADEIRAMENTE inclusiva, pois temos alunos, além de surdos, com baixa audição, surdos-cegos, surdos com paralisia, surdos com graus de autismo, enfiem uma gama de indivíduos que, inclusive, vêm de escolas regulares onde foram rejeitados e se sentem acolhidos em nossa escola. Admiro sua luta, sua determinação, mas não quero ser enquadrada sob um julgamento primário que coloca as escolas especiais como agentes do mal, símbolos da segregação. Fica o convite para vc conhecer nossa escola e o nosso trabalho. Um abraço
    Ana Glaucia

    Publicado por Ana Glaucia | 10/12/2011, 20:03
    • Olá, Ana Glaucia, obrigada por escrever ao Inclusão Já! A escola especial não se configura em um ambiente que respeita os direitos fundamentais dos alunos porque educação passa, necessariamente, pela vivência na SOCIEDADE. Por isso mesmo, apesar de ter certeza absoluta de que, como você, existem milhares de profissionais que realizam seus trabalhos em escolas e classes especiais com extremo zelo, dedicação e competência, a escola especial, seja ela qual for, falha pelo princípio. E, ainda, não podemos como adultos e profissionais que somos simplesmente nos curvarmos diante de escolas que REJEITAM crianças. O que é isso? A escola especial (que segrega, sim, porque junta pessoas em um ambiente apenas com base na deficiência) não pode ser um lugar para onde vão os “rejeitados”, pois essa prática LEGITIMA a rejeição. E se prestar a esse papel é ceder diante do fracasso da nossa sociedade. As instituições que podem se ressignificar para o atendimento educacional especializado, como o caso das que oferecem hoje escolarização substitutiva, no meu entendimento deveriam, entre outras ações, fazer o verdadeiro controle social em parceria com as famílias, atuando diretamente na inibição desses desmandos e auxiliando as famílias a procurarem seus direitos. Podem, ainda, usar toda essa expertise para fazer da escola comum realmente ambientes inclusivos. Mas quando digo isso ninguém sequer se manifesta nesse sentido. Dizer que não dá e pronto é simplista demais! Afirmar que uma escola é inclusiva porque atende gente com outros tipos de deficiência é um equívoco conceitual no que se refere à inclusão. Nenhuma escola é inclusiva se tiver por princípio a categorização de seres humanos com base em uma característica (aqui, no caso, a deficiência). Espero que não se sinta ofendida, porque o que critico não é o trabalho dedicado de quem atua nessas escolas. Critico o princípio que rege a escola especial, que fixa a identidade dos indivívuos de uma forma tão arbitrária e, com base nisso, os exclui da escola comum (direito inalienável). E essa crítica é um contra-convite (à reflexão). Um abraço grande! Meire.

      Publicado por Inclusão Já! | 10/12/2011, 20:28
  3. Oi, Meire
    Obrigada pela resposta tão prontamente. Concordo com você quanto ao apoio à família, à orientação na busca pelos direitos e também quanto a tudo o que, nós, profissionais que trabalhamos de perto com os deficientes podemos contribuir para a sociedade. Eu tenho refletido muito sobre a minha prática pedagógica, revisto algumas opiniões, porque acredito no debate e na liberdade de expressão e, principalmente, na possibilidade de mudança. Contudo, eu ainda acredito na escola que trabalha com especificidades. Acho que o nome “escola especial” já está por demais carregado de significado pejorativo, mas não acredito que uma determinação vertical dizendo “Fechem suas portas” seja um exemplo de democracia. Aqui, vivemos tempos incertos, na dúvida sobre se um trabalho realizado com esforço e dedicação cairia por terra.Infelizmente, para a maioria dos governos, incluir é apenas depositar o aluno com deficiência em uma turma regular, com mais outros 40, sem preparar o professor e a estrutura escolar para o processo inclusivo. É isso que vemos acontecer. Por isso eu acredito que deve haver para a família a liberdade de escolha: colocar seu filho em uma instituição especializada ou em uma instituição regular. Os pais de nossos alunos têm preferido manter seus filhos em nossa escola, muitos depois de passarem pela experiência inclusiva. Mas de qualquer forma, venha o que vier , torçamos pelo melhor. Eu continuarei seguindo seus posts sempre querendo ver o outro lado, aprender e repensar minha prática.
    Abraços. Parabéns por trabalho sério, apesar de ter opinião diferente, sei reconhecer a qualidade de suas publicações, daí o meu interesse em fazer um comentário.
    Ana

    Publicado por Ana Glaucia | 10/12/2011, 21:29
  4. Senhora Meire:

    Essas são suas palavras. Este fórum concede-me o direito de comentá-las. Caso meus comentários sejam aceitos, eles serão publicados. Essa é a regra e estou aqui para aceitá-la. Concordo e discordo em várias das questões colocadas. Mas, selecionei essas abaixo por entender que já é tempo de sairmos da retórica e provarmos com AÇÃO o que desejamos, realmente. Afinal os parlamentares, os funcionários públicos (SECADI citado) estão nessas funções para fazer o que nós PÚBLICO entendemos que deva ser feito, concorda?

    “Em vez de guerra, deveríamos todos estar em união, para tornar nossas escolas inclusivas.”

    SIM, CONCORDO PLENAMENTE! Por isso pergunto: por que não podemos ter em nossa rede pública de ensino Escolas Bilíngues para Surdos, Escolas Especiais para quaisquer outras chamadas deficiências e as Escolas de Educação Inclusiva, conforme a senhora defende?

    “Dedicando tempo e recursos para a paz e para a promoção da educação bilíngue nas escolas comuns.
    Libras não é exclusividade dos surdos.”

    SIM, concordo, também, com Escolas Bilíngues em tempo Integral (não com AEE). Concordo que a LIBRAS não é EXCLUSIVIDADE das pessoas Surdas, porém foi criada e desenvolvida pelas comunidades surdas, à despeito da proibição que sofreram pelo mundo ao usarem a Língua de Sinais A LIBRAS é uma língua que pode ser adquirida por todas as pessoas, pois essa capacidade (de criar e desenvolver línguas) está na mente de todos os seres humanos, isto é, falando com base nos “universais linguísticos” de Noam Chomsy.

    “Os ouvintes também deveriam ter o direito de conviver com os surdos e aprender sua primeira língua.”

    SIM, as pessoas Surdas na década de 90 iniciaram uma formação em Cursos Livres, através da FENEIS, entidade lideradas por Surdos que entenderam essa importância e firmaram esse propósito de ENSINAR A SUA LÍNGUA ÀS PESSOAS OUVINTES. Atualmente, estão se formando em Curso de Licenciatura como o Letras LIBRAS que está sendo implantado por todas as universidades que concordam com o seu pensamento, senhora Meire, sobre a importância desse ensino ser facultado aos ouvintes.

    “E isso só se torna possível se todos trabalharmos juntos para fortalecer a inclusão. É o que defende a Secadi/MEC, ao contrário do que muita gente anda dizendo por aí.”

    DISCORDO, senhora Meire, a SECADI, sequer garante que as pessoas surdas recém nascidas adquiram de forma natural e confortável essa a LIBRAS. Isso não existe na Política de Inclusão vigente. Não existe a garantia de uma Aquisição Natural dessa língua para os surdos. Essa língua que a senhora TEM O DIREITO de adquirir, através do ensino, em cursos livres ou na escola pública, só pode ser adqurida NATURALMENTE, entre os prórpios surdos. Por isso, defendemos a Escola Bilingue para Surdos em tempo Integral, desde bebe, através das creches.

    “Em 2010, visitei uma escola de Educação Infantil inclusiva (bilíngue) em Vitória (ES). Um bebê de um ano e meio, que estava no colo da diretora, pediu uma maça que estava sobre a mesa em Libras. Detalhe: a criança era ouvinte.”

    Muito interessante, não é senhora Meire, as crianças ouvintes que ainda NÃO USAM A VOZ para falar, poderem se expressar através da LIBRAS. Que fato extraordinário! Mais extraordinário, ainda, é um bebê surdo, nessa idade, ter acesso a uma língua natural, a LIBRAS (aqui no Brasil), para que possa vir a adquirir plenamente e sem sofrimento a língua portuguesa, por isso defendemos a Escola Bilíngue para Surdos, senhora Meire.

    “Esse é o resultado da inclusão. Mas só poderemos ver isso crescer, se consolidar, se a própria comunidade surda se dispuser a encarar o desafio.”

    CONCORDO que termos Escolas Bilingues para os Surdos é resultado de Política de Inclusão que está faltando em nosso país.

    “A construir essa escola para todos, em que um bebezinho ouvinte escolhe se quer pedir uma maçã em Português ou em Libras, pois desde cedo é bilíngue.”

    DISCORDO, senhora Meire, esse bebezinho não escolheu a língua que queria usar. Ele simplesmente usou a língua possível para ele, naquele momento, em que não estava habilitado, naturalmente, ainda para usar a língua oral, pois o natural para ele é a língua oral. Mas, isso não é um tema simples, é um tema para uma longa exposição.

    “Vamos privar nossas crianças disso? Escolas comuns bilíngues = país bilingue. Um desafio e tanto, que colocaria nosso país na vanguarda da garantia dos direitos humanos.”

    Senhora Meire,CONCORDO PLENAMENTE. Não podemos privar os BEBÊS OUVINTES de se comunicarem conosco, bem antes de estarem aptos fisicamente, a usar a voz. PORÉM, estão fazendo de tudo para PRIVAR OS BEBÊS SURDOS DE ADQUIRIR UMA LÍNGUA, NATURALMENTE. Estão, IMPINGINDO a necessidade de ADQUIRIR COM SOFRIMENTO E, TARDIAMENTE, UMA LÍNGUA ORAL o ue o colocar em desvantagem qaunto à aquisição de sua 2ª língua, o português do nosso país.
    Com quem a senhora acha que esse bebê aprendeu a usar /MAÇA/? Não conheço a escola do Espirito Santo, mas muito, provavelmente, há surdos por lá que estão interagindo com os ouvintes. Por que eles não podem estar interagindo com os surdos para que usem /MAÇA/ nessa mesma idade? Ou a senhora entende que os ouvintes é que sabem a LIBRAS e DEVEM ensiná-las aos surdos?
    Por que o direito de ADQUIRIR UMA LÍNGUA NATURALMENTE É SEGREGAÇÃO? Uma pessoa ouvinte que vai para o país de onde quer adquirir a língua, vai para uma segregação? Quem vai em intercâmbio para a Alemanhã, Estados Unidos, Japão e outros, são pessoas que se segregam? Que perderão a sua língua de origem? Que não mais quererão retornar ao seu país?
    Senhora Meire, sem mais delongas, VAMOS EXPERIMENTAR COLOCAR EM PRÁTICA A SUA SUGESTÃO DE SENTAR E ELABORAR UMA PROPOSTA de Edcuação PARA TODOS,COMO ESCRITO ABAIXO?

    “Fica aqui o convite para a construção de uma escola e de uma sociedade que valoriza a comunicação entre todos:”

    Publicado por emeli marques | 02/05/2012, 18:18
    • Sabe, Emeli, vou, evidentemente, deixar aqui a sua manifestação para que fique bem clara a incoerência do seu discurso. Eu defendo algo muito (muito, mesmo) simples: uma só escola para todos. Uma escola das diferenças. Uma escola do combate aos rótulos baseados em uma infinidade de diferenciações que a sociedade, a família, os linguistas, a medicina (…) são capazes de produzir. É esse o convite que faço (e, pela sua ironia, acho que você não entendeu). Agora o que mais me espanta é essa insistência de dizer que existe a tentativa de privar crianças surdas de adquirir “a língua natural” (que seria Libras). Primeiro porque isso não procede. É de escolha da família a forma de COMUNICAÇÃO de seus filhos surdos, não do estado (por isso, a ideia de repressão nesse sentido soaria, no máximo, como mania de perseguição a essa altura do campeonato, diante de tantas ações de promoção da Libras feitas justamente pelo Ministério da Educação – é bom difundir informação justa e correta). Segundo porque Libras é uma das possibilidade de comunicação, e não a única ou uma “língua natural” do sujeito surdo (os surdos de nascença oralizados e felizes que o digam, não?). Não existe OBRIGATORIEDADE da Libras para as pessoas surdas e lugar de criança (qualquer uma) é na escola comum. No mais, agradeço e me sinto lisonjeada por um texto meu ter merecido seu tempo para ser argumentado parte a parte. Ah, em tempo: a bebê citada por mim no texto SABIA, sim, FALAR A PALAVRA MAÇÃ. Mas escolheu usar a Libras. Viva a inclusão escolar! ;-)

      Publicado por Inclusão Já! | 02/05/2012, 18:43
  5. Senhora Meire,
    a ironia, citada está por sua conta. Não tive intenção de ser irônica. Me desculpe, se minhas palavras tiveram esse “tom” para a senhora. Porém, não estou aqui por conta disso. O seu texto como de tantos outros/as que estão aqui, neste espaço, tem para mim a importância do tema proposto.
    Em tese defendemos a escola para todos, na rede regular de ensino, na escola pública. Mas, temos diferença sim, é evidente. A começar pelo conceito de “rede regular de ensino”. Mas, não vou me deter sobre isso. Eu estou tentando chamar-lhe a atenção para as diferenças. Elas existem, são positivas e são saudáveis. As diferenças precisam ser respeitadas com a garantia de direitos iguais para todos, mas sem querer apagá-las, subjugá-las a um só modo de viver, a um só modo de ser! Se são “um bem” por que apagá-las, não é mesmo?
    Então, a senhora defende como é dito, a escola inclusiva conforme o seu pensamento. Não tiro esse que é um direito seu, como pessoa, como cidadã. Mas, por favor, não tire o meu direto de pensar diferente. Por que essa insistência em prevalecer só um pensamento sobre a inclusão? Não subestime, nem a mim e nem aos pensam igual a mim.
    Agora, questões de esclarecimento teórico em se tratando da área da surdez:
    1- Todas as línguas são naturais, sim. Porém, quando dizemos aquisição de uma língua, naturalmente, estamos nos referindo ao processo de aquisição no contexto dos que usam essa determinada língua. Se vamos adquirir a língua inglesa aqui, no Brasil, por exemplo, por mais que um curso organize estratégias para que essa aquisição seja a mais próxima possível do natural, ela não se dará dessa forma, natural. Natural é adquiri-la no espaço geográfico onde é usada. A LIBRAS só pode ser adquirida naturalmente entre os usuários dessa língua, (de forma natural e espontânea), não em sala de aula. Em sala de aula será realizado o aprendizado do aspecto formal, normativo dessa língua. Assim se dá com a língua portuguesa com as crianças que ouvem. Quando vão para a escola elas já têm a aquisição natural. Farão então o desenvolvimento das normas do português. Por isso, as crianças surdas que venham a adquirir a LIBRAS com sua L1, precisam de um momento, espaço, metodologia, estratégias próprias para a aquisição do português como L2, em sua forma escrita. O momento de aquisição da L2 precisa ser de forma diferente dos ouvintes, que estarão no seu momento de desenvolvimento de sua L1 e não de aquisição. Se falarmos da habilidade oral do português para os surdos, então esse é um capítulo a parte.

    2 – 96% das crianças surdas nascem de famílias que ouvem. Os pais, geralmente, jovens não estão nunca preparados para as possíveis diferenças que seus filhos possam vir a ter quer de forma hereditária quer durante a gestação, quer pós nascimento. Como não existe uma Política Pública pensada ou em prática para isso, pergunto, em relação aos filhos surdos, como os pais podem saber sobre a necessidade de seus filhos para tomarem uma decisão quanto a qual língua escolher? Caso o façam em favor à LIBRAS, onde esses pais levarão os seus filhos bebês para darem início a essa aquisição, a tempo e hora? Não, não são questões simples. São complexas, mas possíveis de serem solucionadas, se respeitarmos as diferenças físicas e de pensamento. Não, senhora Meire, os pais e mães de surdos, ainda, não encontram alternativas educacionais para seus filhos.
    3- A língua não existe só para a comunicação. A comunicação é uma de suas possibilidades funcionais. Ela tem um valor muito mais complexo. Nenhum ser humano existe, socialmente, SEM QUE TENHA ADQUIRIDO UMA LÍNGUA. A língua constrói o nosso pensamento e este a constrói, nos constrói, interiormente, como pessoas, sujeitos, atores ou outros termos que queiramos dar a nossa pessoa. Só existimos, no social, através de uma língua. Por isso é tão importante uma aquisição natural, no momento certo, do nascer até os dois, três anos, mais ou menos como toda mãe sabe, quando completa-se esse período de aquisição. Para que isso aconteça com as crianças surdas não existe, ainda, Política Pública, infelizmente, por isso lutamos pela Escola Bilíngue Integral para Surdos, desde os primeiros anos de vida.
    Finalmente, concordo que a língua de sinais não tem sido a língua natural para todas as pessoas surdas. Mas, todas que conheço,mesmo tendo adquirido o português primeiro, têm feito da LIBRAS a sua língua do afeto, a sua língua do coração, do conforto, mesmo que tenham sido privados/as (insisto) dela quando bebês, vindo a adquiri-la, tardiamente. É claro que não são todos/as que têm esse privilégio.
    Quanto a sua admiração pelo bebê ouvinte expressando-se com a voz, em LIBRAS /MAÇA/, é isso o que desejo para as crianças surdas, nessa idade. É esse meu desejo, da comunidade surda usuária da LIBRAS, de profissionais da educação surdos e ouvintes: pedagogos, linguistas, filósofos, psicólogos etc.,. Entretanto, isso não está contemplado na proposta única de escola inclusiva que a senhora defende, o que desejamos não consta no PNE a ser aprovado para os próximos dez anos. Por isso continuamos nossa luta. A LIBRAS nem era reconhecida no início deste milênio, em nosso país. Felizmente, existiu e, ainda, resiste bravamente um espaço acadêmico que foi o berço da LIBRAS, o INES. Por causa da existência do INES, o bebê ouvinte pode aprender a sinalizar /MAÇA/. Quem luta, sabe pelo que luta e tem esperanças!
    As referências abaixo trata-se apenas de uma formalidade que respalda, teoricamente, as reflexões apresentadas:

    ERIKSSON, P. The History of Deaf People: A Source Book . TRYCKMAKARNA i Örebro AB, 1998.

    BARROS, A. C. Aquisição da Língua de Sinais como Primeira Língua: Direito dos Surdos. In: Revista da FENEIS. Ano II, Nº 8, outubro/dezembro, 2000

    BEHARES, L. E. Nuevas corrientes en la educación del sordo: de los enfoques clinicos a los culturales. In:Cadernos de Educação Especial. Universidade Federal de Santa Maria. N° 4,1993.

    BAKHTIN. M.M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1992.

    KARNOPP, B. L. Língua de sinais e língua portuguesa: em busca de um diálogo. In: LODI, A. C. B.; HARRISON, K. M. P.; CAMPOS, S. R. L. e TESKE. O. (orgs) Letramento e Minorias. Editora Mediação, Porto Alegre, 2002.

    LYONS, J. Linguagem e lingüística: uma introdução. Rio de Janeiro: LTC Livros Técnicos e Científicos, 1987.

    QUADROS, R. M. de. & KARNOPP, L. B. Língua de sinais brasileira: estudos lingüísticos. Porto Alegre: Artmed, 2004. Científicos, 1987.

    SÁNCHEZ, C. La Adquisición de la Lingua Escrita sin Mediación de la Lingua Oral. Caracas. Dir. Educación Especial – OEA, 1989.

    SKLIAR, C. (org.) Educação e exclusão – abordagem socioantropológicas em educação especial. Porto Alegre: Mediação, 1997.

    ——— A surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre:Mediação, 1998.

    SOUZA, R. M. de. Que palavra que te falta?. São Paulo, 1998.

    Publicado por emeli marques | 04/05/2012, 3:36
  6. Eu vejo a política muito teórica, a lei assegura muito as pessoas com necessidades especiais. porém percebo que falta a valorização para professores que trabalham no AEE ou inlusão. Vocês sabem me dizer se existe alguma lei que gratifica professores que trabalham com alunos que tenham deficiências?

    Publicado por JACIARA DA CONCEIÇAÕ SAMPAIO | 07/08/2012, 22:37

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