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Opinião

Inclusão, eternamente, contra o preconceito

 

Por Hans Frank*

Há muito tempo, a palavra “igualdade” produziu a mesma polêmica que, hoje, a palavra “inclusão” tem produzido. Antigamente, o termo igualdade era muito usado para tratar do direito de todos aos mesmos benefícios, antes voltados à elite formada por homens brancos. Direitos, por exemplo, como das mulheres ao voto, dos negros a salários equiparados aos dos brancos, entre outros.

O conceito de igualdade continua corrente e o Brasil avançou muito. E continua avançando. Mas há um porém! Em muitos lugares, esse conceito é mal interpretado, senão desvirtuado, deixando imperar o preconceito e fazendo da igualdade apenas fachada. Há leis. Por força delas, todos os lugares são obrigados a aceitar todas as pessoas, não importam as suas características.

Quando eu frequentava a praça Largo do Rosário, em Campinas, no final dos anos 80, lembro que todo domingo havia um movimento de negros que batucavam e cantavam pagode, discutiam políticas e afins. Apreciava muito aquilo. Um dia, vi um negro distribuindo folhetos convidando as pessoas a participarem de um pagode em um galpão do bairro. O folheto dizia: “Só black” (“Só negro”, em inglês). Fiquei pasmo. Custou-me acreditar que o folheto anunciava que, para participar do pagode, teria de ser negro. Como era possível, depois de séculos de escravidão, depois da Lei Áurea, de 1888, vermos que os brancos estão sendo barrados de participar de um pagode? O que aconteceu? Isso é fruto do preconceito. Ainda há quem discrimine os negros. E, por isso, o grupo escreveu “Só black”, como se isso fosse uma forma lógica e correta de preservar os negros. Mas não é. Esse não é o melhor caminho. Além de ser contra a Constituição Federal de 1988, que prega a igualdade para todos, é um retrocesso às origens do problema e promove o segregacionismo.

Para atingirmos a igualdade de direitos, sem preconceitos, cortando o mal pela raiz, precisamos de algo simples:

INCLUSÃO!

E isso se traduz nas palavras sábias da professora Maria Teresa Eglér Mantoan: “Inclusão é o privilégio de conviver com as diferenças”.

E por onde começar a inclusão? Pela escola! Para a educadora Maria Teresa Égler Mantoan, na escola inclusiva professores e alunos aprendem uma lição que a vida dificilmente ensina: respeitar as diferenças. A inclusão é a melhor solução para vencer o preconceito. Esse é o primeiro passo para construirmos uma sociedade mais justa. Essa é a forma de cortarmos o mal do preconceito pela raiz. E, apesar de ser óbvio, é interessante ver que o tema gera polêmica. Assim como a história acima, em que, para se preservarem, os negros daquele grupo optaram por se apartarem, hoje vemos escolas que existem com a mesma finalidade.

Vejo surgirem correntes e movimentos contra a inclusão. Mas por quê? Que mal há na inclusão? Por que tanto barulho por algo que não machuca? Ao contrário. Pesquisei os argumentos e o que vi são meras desculpas alegando incompatibilidade social, proteção aos alunos, diferenças culturais ou linguísticas… Preferem o gueto. Preferem estudar em classes para esta ou aquela categoria, definida por uma ou outra característica do sujeito, como se o sujeito fosse reduzido à sua deficiência, por exemplo. Preferem seguir o caminho da segregação. E, pior, tudo são palavras de gente grande, de pessoas crescidas e traumatizadas por um passado em que a inclusão não era pensada ou, sequer, uma política pública como é hoje.

Mas há caminhos diferentes disso. A inclusão, vivida pelas crianças desde cedo, das novas gerações, será a esperança de um Brasil de real igualdade de direitos, sem preconceitos. Destaco, por fim, uma frase da Oração do Pai Nosso, ensinada por Jesus: “Assim na Terra, como nos Céus”. Para quem crê, nos Céus há a igualdade, não há preconceitos. Que seja assim na Terra. Para quem não crê, lembremos de que temos uma lei chamada Constituição Federal, que garante o direito à escola comum a todas as crianças, sem discriminação. Vamos refletir. E que cada um de nós faça a sua parte.

 

*Hans Frank é palestrante, administrador e professor de Libras, mora em Campinas (SP), perdeu a audição quando era bebê, cresceu em escolas inclusivas e é defensor da educação inclusiva.

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Discussão

2 comentários sobre “Inclusão, eternamente, contra o preconceito

  1. Inclusão sim…, porém para que a inclusão deixe de fato o papel os professores tem muito a aprender, tenho um filho tdah e é quase que diária a reclamação, é dificel conviver com pessoas apontando meu filho, crianças não querem brincar com ele e isso deixa no meu menino com baixa auto estima, estou triste meu filho ficou sem nota em matemática e não vejo por parte da escola interesse claro em dar a essas crianças a atenção e suporte, já que a lei da direto a inclusão, porem falta politica de desenvolvimento normas regras para os educadores seguirem ou até mesmo instrução para os educadores para aprenderem a ensinar crianças com TDAH, tanto que a professora me disse não saber avaliar meu filho.
    Inclusão sim, porém leis, e educação dos educadores.

    Publicado por loiva | 03/08/2011, 20:50
    • Olá! A situação da qualidade do ensino é um debate que precisa com urgência ganhar força na sociedade. A inclusão, em seu sentido amplo, visa garantir igualdade de acesso e qualidade de ensino a todas as crianças, inclusive àquelas público-alvo da educação especial (pessoas com deficiência, TGD e altas habilidades/superdotação). Não existe nada que justifique a postura desidiosa da escola quando afirma que não é possível avaliar a criança ou a deixa sem nota enquanto os demais recebem a nota normalmente. O diganóstico, seja ele qual for, apenas ajuda a escola a entender melhor a criança, mas, em hipótese alguma, pode ser usado como justificativa para discriminar e não ensinar. Se seu filho estuda em uma escola pública, recomendo procurar a secretaria de educação urgentemente e reportar o que está acontecendo. Se é uma particular, considere a possibilidade de mudá-lo de escola. Todas as diretrizes já foram dadas. Leis temos várias que garantem o acesso e a permanência. Muitas já são as práticas exitosas pelo país que podem inspirar educadores e gestores públicos. Não se trata mais disso. Precisamos agora é pressionar o poder público a formar seus docentes, usarem todos os recursos e empreender todos os esforços necessários para acabar com essa perversidade. Caminhos já temos. Precisamos agora é ver vontade e ação política para fazer acontecer. Obrigada por escrever!

      Publicado por Inclusão Já! | 03/08/2011, 21:33

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